Capítulo X Dos Gestos

Este capítulo pode ser dividido nas seguintes partes:

1. As Posturas.
2. As deambulações (e movimentos similares).
3. As Trocas de posição (Isso depende da teoria de construção do círculo).
4. Batidas e Toques de Sino.

I

As posturas são de dois Tipos: natural e artificial. Do primeiro tipo, a prostração é o exemplo óbvio. Tornou-se natural para o homem ‒ pobre criatura! ‒ atirar-se no chão na presença do objeto de sua adoração 1).

Intermediária entre esta e a forma de gesticular puramente artificial vem uma classe que depende de adquirir o hábito. Desta forma é natural a um oficial europeu oferecer sua espada em sinal de rendição. Um tibetano, no entanto, agachar-se-ia, colocaria a língua para fora, e colocaria sua mão atrás da orelha direita. Os gestos puramente artificiais compreendem definitivamente em sua classe a maioria dos sinais mágicos, apesar de que alguns destes simularem uma ação natural – por exemplo, o sinal de Abrir o Véu. Mas o sinal de Auramoth (ver a ilustração do Equinox I, II, “Sinais dos Graus”) meramente imita um hieróglifo que tem apenas uma conexão remota com qualquer fato na natureza. Todos os sinais precisam, é claro, ser estudados com paciência infinita, e praticados até que a conexão entre eles e a postura mental que eles representam pareça “necessária”.

II

O principal movimento no círculo é a deambulação 2).

Isso tem um resultado bem claro, mas um que é difícil de descrever. Uma analogia é o dínamo. A deambulação devidamente realizada em combinação com o Sinal de Hórus (ou “O Entrante”) ao passar pelo leste é um dos melhores métodos de estimular a força macrocósmica no Círculo. Nunca deveria ser omitido a menos que haja alguma razão especial para isso.

Um passo particular parece apropriado a isso. Esse passo deveria ser leve e furtivo, quase oculto, e mesmo assim muito resoluto. É o passo do tigre que persegue o veado. O número de deambulações deveria, é claro, corresponder à natureza da cerimônia.

Outro movimento importante é a espiral, da qual existem duas formas principais, uma pra dentro, outra pra fora. Elas podem ser executadas em outra direção; e, como a deambulação, se for executada no sentido horário 3) elas invocam – se no sentido anti-horário 4) elas banem. 5)

Na espiral o passo é leve e rápido, quase que se aproximando de uma dança: enquanto faz isso o magista geralmente girará em seu próprio eixo, também na mesma direção da espiral, ou na direção oposta. Cada combinação envolve um simbolismo diferente.

Também existe a própria dança; ela tem muitas formas diferentes, cada Deus tendo sua dança especial. Uma das danças mais fáceis e efetivas é a valsa normal combinada com os três sinais de l.v.x. É muito mais fácil de obter êxtase desta maneira do que geralmente se supõe. A essência do processo consiste no esforço da Vontade contra a tontura; mas esse esforço precisa ser contínuo e grave, e sob o grau disto a qualidade e intensidade do êxtase obtido pode depender.

Com a prática, a tontura é totalmente conquistada; a exaustão então toma seu lugar como inimiga da Vontade. É através da destruição mútua destes antagonismos no ser mental e moral do magista que o Samadhi é produzido.

III

Bons exemplos do uso da mudança de posição são dados nos manuscritos Z.1 e Z.3 6); Na construção da cerimônia uma coisa importante a decidir é se você fará ou não tais movimentos. Pois todo Círculo tem seu simbolismo natural, e mesmo que se nenhum uso for feito destes fatos, precisa ser cuidadoso em não deixar nada estar desarmonioso com as atribuições naturais.

As necessidades práticas do trabalho tendem a exigir certos movimentos. Alguém também deveria excluir este simbolismo totalmente, ou senão pensar muito bem em todas as coisas antecipadamente, e torná-lo significante. Não deixe algumas ações serem simbólicas e outras casuais.

Pois a aura sensível do magista pode ser perturbada, e o valor da cerimônia completamente destruído, pelo embaraço causado pelo descobrimento de algum tal erro, da mesma forma que se um T-totaller preocupado notar que se desviou em um Templo do Rum Demônio! Então é impossível negligenciar teoria do Círculo.

Para tomar um exemplo simples, supondo que, na Evocação de Bartzabel, planeta Marte, cuja esfera é Geburah (Severidade) estava situada (realmente, nos céus) oposta ao Quadrado de Chesed (Misericórdia) do Tau no Círculo, e o triângulo colocado de acordo. Seria impróprio para o Magus parar naquele Quadrado a menos que usando esta fórmula: “Eu, de Chesed, governo Geburah através do Caminho do Leão”; enquanto – tomando um caso extremo – colocar-se no quadrado de Hod (que é naturalmente dominado por Geburah) seria uma loucura que apenas uma fórmula da mais alta Magia poderia cancelar.

Certas posições, no entanto, como a de Tiphareth 7), são tão simpáticas ao próprio Magus que ele pode usá-las sem referências à natureza do espírito, ou da operação; a menos que ele exija um espírito excepcionalmente preciso e livre de todos os elementos estranhos, ou um cuja natureza é dificilmente compatível com Tiphareth.

Para mostrar como estas posições podem ser usadas em conjunção com as espirais, vamos supor que você está invocando Hathor, Deusa do Amor, a descer sobre o Altar. Colocando-se no quadrado de Netzach você faria sua invocação a Ela, e então dançaria uma espiral para dentro no sentido horário terminando aos pés do altar, onde você cairia em seus joelhos com seus braços levantados sobre o altar como se estivesse convidando-A a abraçar 8).

Para concluir, alguém pode adicionar aquela habilidade artística natural, se possuí-la, forma um excelente guia. Toda Arte é Magia.

Isadora Duncan possui este dom de gesticular em um grau muito elevado. Que o leitor estude sua dança; se possível antes em privado do que em público, e aprender a “inconsciência” soberba – que é a consciência mágica – com a qual ela ajusta a ação à melodia 9).

Não há recurso mais poderoso do que a Arte de evocar Deuses verdadeiros à aparência visível.

IV

As batidas ou toques de sino são todos da mesma característica. Eles podem ser descritos coletivamente – a diferença entre eles consiste apenas nisto, que o instrumento com o qual eles são feitos sela-os com sua própria propriedade especial. Não é de grande importância (todavia) se são feitas batendo as palmas das mãos ou batendo os pés, por pancadas de uma das armas, ou pelo instrumento teoricamente apropriado, o sino. Todavia pode ser admitido que eles se tornem mais importante na cerimônia se o Magista considerar importante enquanto adotar 10) um instrumento cujo simples propósito é produzi-los.

Que primeiro seja estabelecido que uma batida afirma uma conexão entre o Magista e o objeto que ele bate. Dessa forma o uso do sino, ou das mãos, significa que o Magista deseja imprimir a atmosfera do círculo inteiro com o que foi ou está a ponto de ser feito. Ele deseja formular sua vontade em som, e irradiá-lo em toda direção; além disso, influenciar isso que vive pelo fôlego no sentido de seu propósito, e chamá-lo a testemunhar à sua Palavra. As mãos são usadas como símbolos de seu poder executor, o sino para representar sua consciência exaltada em música. Bater com a baqueta é proferir a sanção da criação; a taça vibra com seu deleite em receber o vinho espiritual. O golpe com a adaga é como o sinal para a batalha. O disco é usado para expressar a queda do preço da aquisição do indivíduo. Bater o pé é declarar a maestria do indivíduo da matéria em mão. Similarmente, qualquer outra forma de dar batidas tem sua própria virtude. Dos exemplos acima o estudante inteligente terá percebido o método de interpretar cada caso individual que possa vir em questão.

Conforme dito acima, o objeto batido é o objeto imprimido. Desta forma, um golpe sobre o altar afirma que ele cumpriu com as leis de sua operação. Bater a lâmpada é chamar a Luz divina. Dessa forma com o restante.

Precisa ser observado também que muitas combinações de ideias se tornam possíveis por essa convenção. Bater a baqueta dentro da taça é aplicar a vontade criativa ao seu próprio complemento, e assim realizar a Grande Obra pela fórmula da Regeneração. Bater com a mão sobre a adaga declara que o indivíduo demanda o uso da adaga como uma ferramenta para estender seu poder criativo. O leitor recordará como Siegfried feriu Nothung, a espada da Necessidade, sobre a lança de Wotan. Pela ação, Wagner, que foi instruído em como aplicar a fórmula mágica por um dos cabeças de nossa Ordem, tencionou seus ouvintes a entender que o reino da autoridade e do poder paternal terminou; que o novo mestre do mundo era o intelecto.

O objetivo geral da batida ou toque de sino é marcar um estágio na cerimônia. Sasaki Shigetz nos diz em seu ensaio sobre Shinto que os japoneses estão acostumados a bater suas mãos quatro vezes “expulsar espíritos malignos”. Ele explica que o que realmente acontece é que o súbito e agudo impacto do som arremessa a mente em uma atividade de alerta que a possibilitam a soltar-se da obsessão de sua disposição anterior. Ela é estimulada a aplicar-se agressivamente aos ideais que a oprimem. Então existe uma interpretação perfeitamente racional do poder psicológico da batida.

Em uma Cerimônia Mágica a batida é empregada para quase que o mesmo propósito. O Magista usa-a como o coro no toque grego. Isso o ajuda a fazer um corte claro, para voltar sua atenção de uma parte de seu trabalho para a próxima.

Tanto para a característica geral da batida ou toque de sino. Mesmo este limitado ponto de vista oferece grandes oportunidades ao Magista engenhoso. Mas possibilidades além mentem para nossa mão. Não é comumente desejado conduzir nada exceto ênfase, e possivelmente temperamento, pela variação da força do golpe. É óbvio, além disso, que existe uma correspondência natural entre a batida ruidosa e dura do comando imperioso por um lado, e a batida com som distintivamente leve da compreensão harmoniosa por outro. É fácil distinguir entre a pancada do credor injuriado na porta da frente, e a pancadinha silenciosa do amante na porta do quarto. A Teoria Mágica não pode adicionar aqui instrução ao instinto.

Mas uma batida não precisa ser simples; as combinações possíveis são evidentemente infinitas. Nós precisamos apenas discutir os princípios gerais de determinar qual número de batidas será apropriado em cada caso, e como nós podemos interromper qualquer série de tal forma que expresse nossa ideia pelo significado da estrutura.

A regra geral é que uma simples batida não tem significado especial como tal, porque a unidade é uniforme. Ela representa Kether, que é a fonte de todas as coisas igualmente sem partilhar de qualquer qualidade pelo qual nós discriminamos uma coisa de outra. Continuando nessa linha, o número de batidas referenciará à Sephirah ou outra ideia cabalisticamente cognata com a do número. Desta forma, 7 batidas intimarão Vênus, 11 a Grande Obra, 17 a Trindade de Pais, e 19 o Princípio Feminino em seu senso mais genérico.

Analisando o assunto mais um pouco, nós primeiramente observamos que a bateria de muitas batidas é confusa, assim como sujeita à sobrecarga das outras partes do ritual. Na prática, 11 é aproximadamente o limite. Geralmente não é difícil arranjar para cobrir toda a base necessária to cover all necessary com aquele número. Em segundo lugar, cada uma é tão extensiva em escopo, e inclui aspectos tão diversos de um ponto de vista prático que nosso perigo repousa na incerteza. Uma batida deveria ser bem definida; seu significado deveria ser preciso. As muitas naturezas de batidas sugerem esperteza e precisão. Desta forma nós precisamos planejar alguns significados de fazer a significante a sequência do sentido especial que possa ser apropriado. Nosso único recurso está no uso dos intervalos.

Evidentemente é impossível atingir grande variedade nos menores números. Mas este fato ilustra a excelência de nosso sistema. Existe apenas um modo de bater 2 vezes, e esse fato está de acordo com a natureza de Chokmah; existe apenas um modo de criar. Nós podemos expressar apenas nós mesmos, ainda que nós façamos tal em forma dupla. Mas existem três modos de bater 3 vezes, e estes 3 modos correspondem à maneira tripla pelo qual Binah pode perceber a ideia criativa. Existem três tipos possíveis de triângulo. Nós podemos entender uma ideia ou como uma unidade tripartidade, ou como uma unidade dividindo-se em uma dualidade, ou como uma dualidade harmonizada em uma unidade. Qualquer um destes três métodos pode ser indicado por 3 batidas iguais; 1 seguida, após uma pausa, por 2; e 2 seguidas, após uma pausa, por 1.

Assim como a natureza do número se torna mais complexa, as variedades possíveis aumentam rapidamente. Existem numerosas formas de bater 6, cada uma é apropriada à natureza de diversos aspectos de Tiphareth. Nós podemos deixar a determinação destes pontos à criatividade do estudante.

A geralmente mais útil e adaptável bateria é composta de 11 batidas. As razões principais para isso são as seguintes: “Primeiramente”, 11 é o número da Magick em si própria. Desta forma é compatível com todos os tipos de operações. “Em segundo lugar”, é o número sagrado por excelência do Novo Æon. Conforme está escrito no Livro da Lei: “… 11, como todos os seus números que são de nós”. “Em terceiro lugar”, é o número de letras da palavra Abrahadabra, que é a palavra do Æon. A estrutura desta palavra é tal que expressa a Grande Obra, em todos os seus aspectos. “Por último”, é possível, desta forma, expressar todas as esferas possíveis de operação, qualquer que seja sua natureza. Isso é efetuado pela criação de uma equação entre o número da Sephirah e a diferença de seu número e o 11. Por exemplo, 2° = 9 é a fórmula do grau de iniciação correspondente a Yesod. Yesod representa a instabilidade do ar, a esterilidade da lua; mas essas qualidades estão balanceadas nela pela estabilidade implicada em sua posição como o Fundamento, e pela sua função de geração. Este complexo é equilibrado adiante pela identificação com o número 2 de Chokmah, que possui a qualidade aérea, sendo a Palavra, e a qualidade lunar, sendo o reflexo do sol de Kether assim como Yesod é o sol de Tiphareth. É a sabedoria que é o fundamento sendo a criação. Este círculo inteiro de ideias é expresso na fórmula dupla 2° = 9, 9° = 2; e qualquer uma destas ideias pode ser selecionada e articulada pela bateria correspondente.

Nós podemos concluir com uma simples ilustração de como os princípios acima podem ser postos em prática. Suponhamos que o Magista contempla uma operação com o objetivo de ajudar sua mente a resistir à tendência de vagar. Esse será um trabalho de Yesod. Mas ele precisa enfatizar a estabilidade daquela Sephirah como contrária à qualidade Aérea que ela possui. Seu primeiro ato será colocar o nove 9 sob a proteção do 2; a bateria neste momento será 1-9-1. Mas esse 9 onde está sugere a volubilidade da lua. Pode passar pela sua cabeça dividir isto em 4 e 5, 4 sendo o número da fixidez, lei e poder autoritário; e 5 aquele da intrepidez, energia e triunfo do espírito sobre os elementos. Ele refletirá, além disso, que 4 é símbolo da estabilidade da matéria, enquanto 5 expressa a mesma ideia com relação ao movimento. Neste estágio a bateria parecerá como 1-2-5-2-1. Depois de uma devida consideração ele provavelmente concluirá que partir o 5 central tencionaria em destruir a simplicidade desta fórmula, e decide usá-lo como ele está. A alternativa possível seria fazer uma simples batida no centro desta bateria como se ele apelasse à imutabilidade definitiva de Kether, invocando aquela unidade colocando uma batida quádrupla de cada lado desta. Neste caso, sua bateria seria 1-4-1-4-1. Ele naturalmente seria cuidadoso em preservar o equilíbrio de cada parte da bateria com sua parte correspondente. Isso seria necessário particularmente em uma operação tal como nós escolhemos para nosso exemplo.


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1)
O Magista deve evitar a prostração, ou até mesmo “curvar os joelhos em súplica”, como sendo vergonhoso e desonroso, uma abdicação de sua soberania.
2)
Na Parte II deste Livro 4 foi presumido que o Magista anda descalço. Isso implicaria em sua intenção de fazer um contato íntimo com seu Círculo. Mas ele pode calçar sandálias, pois a Ankh é uma faixa de sandália; nasceu pelos Deuses Egípcios para significar o seu poder de Ir, que é sua energia eterna. Pela forma a Ankh (ou Cruz Ansata) sugere a fórmula pelo qual essa ida é efetuada na real prática.
3)
Isto é, na mesma direção como se movem os ponteiros do relógio.
4)
Isto é, na direção oposta.
5)
Tal, pelo menos, é a interpretação tradicional. Mas existe um desenho profundo que pode ser expresso através da direção de rotação. Certas forças do caráter mais formidável podem ser invocadas pela deambulação anti-horária quando é executada com o objetivo voltado a elas, e a técnica iniciada. De tais forças Tifão é o modelo, e a guerra dos Titãs contra os Olimpianos na lenda. (Teitan, Titan, possui em grego o valor numérico de 666).
6)
Equinox I, VII, pg. 93 e seguintes.
7)
Tiphareth dificilmente é “dominada” até mesmo por Kether. É mais filho do que servo.
8)
Mas não “em súplica”.
9)
Esta passagem foi escrita em 1911 e.v. “Duncan acorda com a tua Batida? I would thou couldst!”
10)
Qualquer ação que não seja puramente rítmica é uma perturbação.


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