Capítulo XVI (Parte II) Da Injunção ao Espírito com Algum Relato das Constrições e Maldições Ocasionalmente Necessárias

I

À aparição do espírito, ou à manifestação da força no talismã que está sendo consagrado, é necessário obrigá-los por um Juramento ou Injunção. O espírito deveria ser constrangido a por sua mão visivelmente sobre a arma pelo poder da qual ele foi evocado, e a “jurar obediência e fé Àquele que vive e triunfa, que reina sobre ele em Seus palácios como a Balança de Retidão e Verdade”, pelos nomes usados naquela evocação.

É apenas necessário formular o Juramento ou Injunção em linguagem harmoniosa com o propósito, previamente anunciado, da operação.

A precaução única é não nos deixarmos recair em nossa humanidade enquanto a arma está estendida além do Círculo. Se a força fluísse da arma para você em vez de você para ela, você seria infalivelmente fulminado, ou pelo menos, se tornaria o escravo do espírito.

Em nenhum momento é mais importante que a Força Divina não só inunde, mas radie de, a aura do Magista.

II

Ocasionalmente pode ocorrer que o espírito se mostra recalcitrante e recusa aparecer.

Que o Magista considere a causa de tal desobediência!

Pode ser que o lugar e o momento estejam errados. Não podemos com facilidade evocar espíritos aquáticos no Sahara, ou salamandras na Região dos Lagos da Inglaterra. Hismael não aparecerá prontamente quando Júpiter está abaixo do horizonte. 1) A fim de contrabalançar uma deficiência natural deste tipo, a gente teria que suprir uma quantidade enorme do tipo apropriado de material. Não podemos fazer tijolos sem ter palha.

Quanto à invocação dos deuses, tais considerações não entram. Os deuses estão além da maioria das considerações materiais. É necessário apenas encher o coração e a mente com as bases apropriadas para manifestação. Quanto mais alta a natureza do deus, tanto mais verdadeiro é isto. O Sagrado Anjo Guardião tem sempre a base necessária. Sua manifestação depende apenas do preparo do Aspirante, e todas as cerimônias mágicas utilizadas naquela invocação são apenas para preparar o Aspirante; absolutamente não são para atrair ou influenciar o Anjo. É a constante e eterna Vontade d’Ele 2) se unir ao Aspirante, e no momento em que a condição deste último torna isto possível, aquela Boda é consumada.

III

A obstinação de um espírito (ou a inércia de um talismã) usualmente indica um defeito de invocação. O espírito não pode resistir, sequer por um momento, à constrição da Inteligência dele, quando aquela Inteligência está trabalhando de acordo com a Vontade do Anjo, do Arcanjo e do Deus acima dele. É, portanto, melhor repetir as invocações do que passar imediatamente às maldições.

O Magista deveria também considerar 3) se a evocação é na verdade uma parte necessária do Carma do Universo, como ele afirmou em seu próprio Juramento (veja-se Cap. XVI.I). Pois se tal não é fato, o sucesso é impossível. Será melhor então voltar ao princípio, e recapitular, com maior intensidade e poder de análise, o Juramento e as Invocações. E isto pode ser feito até três vezes.

Mas se isso tiver sido satisfatoriamente executado e o espírito ainda se mostrar desobediente, a implicação é que alguma força hostil está tentando impedir a operação. Será então aconselhável descobrir a natureza dessa força, e atacá-la e destruí-la. Isto torna a cerimônia mais útil que nunca ao Magista, que pode através dela ser levado à descoberta de uma quadrilha de magistas negros cuja existência ele ainda não suspeitara.

A necessidade de impedir, em Paris, a vampirização de uma senhora por uma feiticeira, em certa ocasião levou Frater Perdurabo à descoberta de um grupo muito forte de magistas negros, os quais ele se viu obrigado a combater durante quase 10 anos antes que a ruína deles fosse completa e irremediável, como agora é.

Tal descoberta não impedirá, necessariamente, a cerimônia. Uma maldição geral pode ser pronunciada contra as forças obstruindo a operação (ex hypothesi nenhuma força divina pode estar interferindo), e tendo assim temporariamente anulado a oposição – o poder do Deus invocado será suficiente para este propósito – podemos passar a conjurar o espírito, com certa severidade, pois ele procedeu mal ao se submeter às conjurações dos Irmãos Negros.

Realmente, certos demônios são de tal natureza que compreendem apenas maldições, e não são dóceis a comandos corteses: –

“um escravo,
Movido por chicote, não bondade.”

Como último recurso, pode-se queimar o Selo do Espírito numa caixa negra com substâncias mal odorosas, tudo tendo sido preparado corretamente de antemão, e os elos mágicos tendo sido retamente estabelecidos; de forma que ele é realmente torturado pela Operação. 4)

Isto, porém, é um acontecimento raro. Somente uma vez no curso de sua inteira carreira mágica foi Frater Perdurabo compelido a uma medida tão severa.

IV

Nesta conexão, cuidado com uma obediência demasiado fácil por parte do espírito. Se alguma Loja Negra recebeu indicações quanto à operação, ela pode enviar o espírito, cheio de submissão hipócrita, para destruir você. Tal espírito provavelmente pronunciará mal algum detalhe do juramento, ou procurará de alguma forma evadir suas obrigações.

É um truque perigoso, porém, para a Loja Negra; pois se o espírito entrar devidamente sobre o controle de você, ele será forçado a revelar a transação, e a corrente retornará à Loja Negra com força fulminante. Os mentirosos estarão em poder de sua própria mentira; seus próprios escravos se erguerão contra eles e os escravizarão. Os malvados caem no mundo que eles mesmos cavaram.

E assim pereçam todos os inimigos do Rei!

V

A injunção ao espírito é usualmente incorporada (exceto em trabalhos de pura evocação, os quais, afinal de contas, são comparativamente raros) em algum tipo de talismã. Em certo sentido, o talismã é a Injunção expressada em hieróglifos. No entanto, todo e qualquer objeto é um talismã, pois a definição de um talismã é: alguma coisa sobre a qual um ato de Vontade (isto é, de Magia) foi executado a fim de torná-la apta a um propósito. Repetidos atos de vontade dirigidos a qualquer objeto consagrarão esse objeto sem mais esforço. Nós sabemos que milagres podem ser executados com o nosso taco de golfe favorito! Nós usamos o taco repetidamente, nosso amor por ele crescendo em proporção ao nosso sucesso com ele; e este sucesso se torna mais e mais certo e completo pelo efeito do “amor sob vontade” que nós conferimos ao taco pelo uso.

É, naturalmente, muito importante manter tal objeto livre de contato pelos profanos. É instintivo não permitir que qualquer outra pessoa utilize nossa vara de pescar ou nossa espingarda de caça. Não é que eles pudessem danificá-las num senso material. É o sentimento que nosso uso dessas coisas as consagrou a nós mesmos.

Naturalmente, o mais flagrante exemplo de tais coisas é a esposa. Uma esposa pode ser definida como um objeto especialmente preparado para assumir o selo de nossa vontade criadora. Isto é um exemplo de uma operação mágica muito complicada, estendendo-se através de séculos. Mas, teoricamente, é apenas um caso comum de magia talismânica. É por isso que tanto cuidado tem sido tomado para impedir que uma esposa tenha contato com os profanos; ou, pelo menos, para tentar impedir!

Leitores da Bíblia se recordarão de que Absalão publicamente adotou as esposas e concubinas de Davi no teto do palácio, a fim de significar que obtivera sucesso em quebrar o poder mágico de seu pai.

Agora, há um grande número de talismãs neste mundo que estão jogados por aí de uma maneira descuidada que é extremamente censurável. Tais são os objetos de adoração popular, como ícones e ídolos. É um fato de grande quantidade de verdadeira Força mágica está armazenada em tais objetos; consequentemente, destruindo estes símbolos sagrados, você pode conquistar magicamente as pessoas que os adoram.

Não é de forma alguma irracional lutar por nossa bandeira, contanto que essa bandeira seja um objeto que realmente tem significado para alguém. Semelhantemente, no caso do talismã mais espalhado e mais devotadamente adorado de todos, o dinheiro, você pode evidentemente quebrar a vontade mágica de um adorador do dinheiro tirando o dinheiro dele, ou destruindo o valor do dinheiro dele de uma maneira ou de outra. Mas, no caso do dinheiro, a experiência geral nos diz que há muito pouco jazendo às soltas por aí para ser apanhado. Neste caso, acima de tudo, o público reconheceu uma virtude talismânica, isto é, seu poder como instrumento da vontade.

Mas com muitos ícones e imagens, é fácil roubar-lhes a virtude. Isto é feito às vezes numa tremenda escala, como, por exemplo, quando todas as imagens de Ísis e Hórus, ou combinações similares de mãe-e-filho, foram “apropriadas” a atacado pelos cristãos. O milagre, porém, é de um tipo um tanto perigoso, como neste caso, em que pesquisas arqueológicas desmascararam o truque. Está demonstrado que as assim chamadas imagens de Maria com o Menino Jesus são apenas imitações das imagens de Ísis com Hórus. Honestidade é a melhor política, em Magia como em outras linhas de vida.


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1)
Não é possível, neste tratado elementar, explicarmos a natureza exata da conexão entre os raios daquele planeta chamado Júpiter e os elementos jupiterianos que existem, em diversos graus, em objetos terrestres.
2)
Já que este Conhecimento e Conversação não são universais, parece como se uma vontade onipotente estivesse sendo impedida. Mas a Vontade d’Ele e a de você juntas fazem aquela vontade única; porque você e Ele são um. Aquela vontade única está, portanto, dividida contra si mesma enquanto você não aspira persistentemente.
Também, a Vontade d’Ele não pode constranger a sua. Ele é tanto um com você que mesmo a vontade de você de se separar d’Ele é a vontade d’Ele. Ele está tão certo de você que Ele se deleita na perturbação de você e no coquetismo de você não menos que na entrega de você. Estas relações estão completamente explicadas em Liber LXV. Veja também Liber Aleph vel CXI.
3)
Naturalmente, isto deveria ter sido feito durante o preparo do Ritual. Mas ele renova esta consideração do novo ponto de vista que ele alcançou durante a invocação.
4)
O significado preciso destas frases é obscuro à primeira vista. O espírito é aparentemente uma parte recalcitrante de nosso próprio organismo. Evocá-lo é, pois, tornar-se cônscio de alguma parte de nosso próprio caráter; comandá-lo e constrangê-lo é trazer aquela parte à obediência. Isto será melhor compreendido pela analogia de nos treinarmos a nós mesmos em alguma habilidade psicofísica (por exemplo, o jogo de bilhar) através de persistente e paciente estudo e prática, o que frequentemente nos causa tanto considerável dor quanto preocupação.


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