Chapter XVII Da Licença de Partir

Após uma cerimônia ter chegado ao clímax, anticlímax deve inevitavelmente seguir. Mas se a cerimônia foi bem sucedida, o anticlímax é meramente formal. O Magista deveria permanecer no alto plano de consciência ao qual ele aspirou. 1) A força inteira da cerimônia deveria ser absorvida; mas é quase certo que haverá um resíduo, desde que nenhuma operação é perfeita; e mesmo se fosse, haveria um número de coisas, simpáticas à operação, atraídas ao Círculo. Estas devem ser devidamente dispersadas, ou degenerarão e se tornaram malignas. É sempre fácil fazer isto em evocações; a mera remoção da vontade imposta do magista restaurará as coisas ao estado normal, de acordo com a grande lei da inércia. Em uma evocação mal executada, porém, isto nem sempre ocorre; o espírito pode reusar ser controlado, e pode recusar partir – mesmo após ter jurado obediência. Em tal caso há extremo perigo.

Ordinariamente, o Magista despede o espírito com estas palavras: “E agora eu te digo, vai em paz para as tuas habitações e esferas – e possa a benção do Altíssimo estar contigo em nome de (aqui se menciona o nome divino apropriado à operação, ou um Nome apropriado para redimir aquele espírito); e haja paz entre tu e mim; e sê sempre pronto a vir, quando que sejas invocado e chamado!” 2)

Se ele não desaparecer imediatamente, é sinal de que há algo muito errado. O Magista deveria imediatamente reconsagrar o Círculo com o máximo cuidado. Ele deveria então repetir a fórmula de despedida; e se isto não for suficiente, ele deveria executar o ritual de banimento apropriado à natureza do espírito, e se necessário adicionar conjurações para o mesmo fim. Em casos como este, ou em quaisquer circunstâncias suspeitas, ele não deve se contentar com a aparente contradição do espírito, o qual poderia facilmente se fazer invisível e fiar de tocaia para causar dano ao Magista assim que este sair do Círculo – ou até mesmo meses após.

Qualquer símbolo, uma vez tenha entrado em nosso ambiente definitivamente com o nosso próprio consentimento, é extremamente perigoso, a não ser sob absoluto controle. Os amigos de um homem são muito mais capazes de lhe causar dano que estranhos; e seu maior perigo consiste em seus hábitos.

Está claro que é a própria condição do progresso acrescentar ideias à estrutura do subconsciente. A necessidade de seleção deveria, pois ser óbvia.

É fato que chega um momento em que todos os elementos possíveis devem ser assim assimilados. Samadhi é, por definição, esse processo mesmo. Mas do ponto de vista do magista principiante, há um jeito certo – e difícil – de fazer tudo isto. Não podemos repetir com demasiada frequência que o que é legítimo e correto num Caminho é alheio a outro.

Imediatamente após a Licença de Partir, e o encerramento geral do trabalho, é necessário que o magista se sente e escreva seu registro mágico. Por mais que ele tenha sido fatigado 3) pela cerimônia, ele deve se esforçar em fazer isto até que se torne um hábito. Em verdade, é melhor fracassar na cerimônia mágica do que deixar de fazer um registro acurado dela. Não haja dúvida quanto a esta asserção. Mesmo se somos comido vivos por Malkah be-Tarshishim ve-Ruachoth ha-Schehalim, não tem muita importância, porque acaba tão depressa. Mas o registro da transação é outro sim importante. Ninguém se importa com o fato que Macbeth assassinou Duncan. Foi apenas um entre muitos assassinatos semelhantes. Mas o relato de Shakespeare fez do incidente é um tesouro para a humanidade. E, a parte a questão do valor para outros, há a questão do valor para o magista mesmo. O registro do magista é seu maior apoio.

É tolice praticar a Magia sem método. Praticar a Magia sem manter um registro é como tentar administrar um negócio sem livro de contas. Há um grande número de gente que tem uma ideia completamente errada da natureza da Magia. Eles pensam que ela é uma coisa “etérea” e “imaginária”, em vez de ser, como é, um meio direto de entrarmos em contato com a realidade. Esta gente se consola com frases, usa palavras difíceis sem qualquer conotação definida, emplastra-se com títulos e medalhas pomposas que não tem significado algum. Com tal gente nós nada temos a ver. Mas àqueles que buscam a realidade, a Chave da Magia é oferecida, e eles são aqui prevenidos de que a chave daquele cofre-forte é inútil sem a combinação; e a combinação é o registro mágico.

De um ponto de vista, o progresso mágico realmente consiste em decifrar nossos próprios diários.4) Assim, o relatório é de máxima importância, por motivos estritamente mágicos. Mas, além disto, é absolutamente essencial que o registro seja claro, completo e conciso, porque é apenas de tal registro que nosso instrutor pode julgar como melhor nos ajudar. Nosso instrutor mágico tem algo mais que fazer além de andar atrás de nós o tempo todo; e a mais importante das funções dele é a de contador. Agora, se você chama um contador para investigar seu negócio, e quando ele pede seus livros de conta você lhe diz que não julgou necessário mantê-los, você não deve se surpreender se ele lhe considerar um completo idiota.

É – ou pelo menos, era – perfeitamente incrível para o Mestre Therion que gente que exibe bom senso noutros assuntos da vida diária perde por completo a cabeça quando lida com a Magia. Isto vai longe para justificar a crença dos semieducados, de que a Magia é uma coisa sem pé nem cabeça, afinal. Mas não há desses avoados na A∴A∴, porque a necessidade de trabalho persistente e severo, de se submeter a exames a intervalos regulares, e de manter um relatório inteligente do que se está fazendo, amedronta os tolos, os preguiçosos, e os histéricos.

Numerosos modelos de relatórios mágicos e místicos podem ser examinados nos vários números do Equinox; e o estudante não experimentará dificuldade em adquirir a técnica necessária, se praticar com diligência.


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1)
O alpinista que relaxa a atenção na face do precipício, cai; mas uma vez ele tenha alcançado uma plataforma segura, ele pode sentar-se.
2)
É costumeiro acrescentar: “por uma palavra, ou por uma vontade, ou por esta potente Conjuração de Arte Mágica.”
3)
Ele deveria estar mais descansado e refrescado que após uma noite inteira de sono profundo. Isto forma um dos testes de habilidade dele.
4)
Como somos uma Estrela no Corpo de Nuit, toda encarnação sucessiva é um Véu, e a aquisição da Memória Mágica é uma gradual Desvelação daquela Estrela, daquele Deus.


Thelema

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