Capítulo II: As Fórmulas das Armas Mágicas

Antes de discutirmos as Fórmulas Mágicas em detalhe, devemos observar que rituais em sua maioria são compostos, e contém muitas Fórmulas que devem ser harmonizadas em uma única Fórmula.

A primeira Fórmula é da Baqueta. Na esfera do princípio que o Magista deseja invocar ele se ergue de estágio a estágio em uma linha perpendicular, e depois desce; ou então, começando do topo, ele desce diretamente, invocando o Deus daquela esfera por devota súplica para que Ele se digne enviar o Arcanjo apropriado. Ele então solicita ao Arcanjo que lhe envie o Anjo ou Anjos daquela esfera como auxílio; Ele conjura este anjo ou Anjos que lhe envie a Inteligência em questão, e esta Inteligência ele conjurará com autoridade, para que ela compila a obediência do Espírito e sua manifestação. A este espírito ele dá ordens.

Será visto que esta é mais uma Fórmula de evocação do que de invocação. Para invocação, o procedimento, se bem que aparentemente é o mesmo, deveria ser interpretado de outra forma, o que o colocará sobre outra Fórmula, a do Tetragrammaton. A essência da força invocada é única, mas o Deus representa o germe ou início da força, o Arcanjo o desenvolvimento desta, e assim até que, com o Espírito, nós temos a compleição e perfeição daquela força.

A Fórmula do Cálice não é tão apropriada quanto à da Baqueta para Evocações, e a Hierarquia Mágica não está envolvida da mesma forma; pois o Cálice sendo passivo antes que ativo, não é apropriado que o Magista o utilize para com o que quer que seja senão o Altíssimo. No trabalho prático, o Cálice representa pouco mais que a oração, e esta oração é “a oração do silêncio”.

Novamente, a Fórmula da Adaga não é apropriada a nenhum dos dois propósitos, uma vez que a natureza da Adaga é criticar, destruir, dispersar, e todas as verdadeiras cerimônias Mágicas tendem a concentração. A Adaga, portanto, aparecerá principalmente nos Banimentos, preliminares às Cerimônias.

A Fórmula do Pantáculo é, novamente, de pouco uso aqui; pois o Pantáculo é inerte. Em suma, a Fórmula da baqueta é a única com a qual necessitamos nos preocupar mais particularmente.

Agora, a fim de se invocar qualquer ente, é dito por Hermes Trimegistus que os Magos empregam três métodos. O primeiro é para as pessoas vulgares, é o da súplica. Nisto, a crua teoria objetiva é assumida como verdadeira. Existe um Deus chamado A, a quem você, B, pede coisas, precisamente no mesmo senso em que um menino poderia pedir ao seu pai uma mesada.

O segundo método envolve um pouco mais de sutileza, porquanto o Magista busca harmonizar-se com a natureza do Deus, e até certo ponto exalta sua consciência no decurso da cerimônia; mas o terceiro método é o único que merece nossa consideração.

Isto consiste em uma real identificação do Magista com o Deus. Note que para conseguir isto com perfeição é necessário uma espécie da Samadhi; e este fato por si só é o suficiente para ligar irrevogavelmente a Magick com o Misticismo.

Descrevemos o método Mágico de identificação. Primeiro, a forma simbólica do Deus é estudada com tanto cuidado quanto um artista daria ao seu modelo, de maneira que uma ideia mental completamente firme e clara do Deus esteja presente na mente. Também, os atributos do deus são formulados em linguagem, e tais discursos são decorados por completo. A invocação então começará com uma oração ao Deus, comemorando os atributos físicos deste, sempre com uma profunda compreensão dos verdadeiros significados desses atributos. Na segunda parte da invocação, a vós do Deus é ouvida, e seu discurso característico é recitado.

Na terceira parte da invocação o Magista assevera sua identidade com o Deus. Na quarta parte, o Deus é novamente invocado, mas desta vez como se fosse Si Mesmo, como se fosse a enunciação da Vontade do deus que Ele se manifeste no Magista. Ao final disto, o propósito original da invocação é afirmado.

Assim, na invocação de Thoth que é encontrada no ritual de Mercúrio e em Liber LXIV, a primeira parte começa com as palavras “Majestade da Divindade, Tahuti, coroado de saber… Tu, Tu eu invoco. Oh Tu cabeça de Íbis, Tu, Tu eu invoco”, etc. A conclusão desta parte, uma imagem mental do Deus, infinitamente vasta e infinitamente esplêndida, deveria ser percebida, no mesmo senso em que um homem poderia ver o Sol.

A segunda parte começa com as palavras: “Vede! Eu sou ontem, hoje e o irmão do amanhã.” O Magista deveria imaginar que ele está ouvindo esta voz, e ao mesmo tempo em que ele a está ecoando, de forma que é verdadeira dele mesmo. Este pensamento deveria exaltá-lo a tal ponto que ele se torne capaz, à sua conclusão, de pronunciar as sublimes palavras que abrem a terceira parte: “Vede! Ele está em mim, e eu nele.” Neste momento, ele perde a consciência de seu ser mortal; é aquela imagem mental que ele previamente apenas viu. Esta divina consciência se completa à medida que ele prossegue: “Minha é a Luz na qual Ptah flutua sobre seu firmamento. Eu viajo no alto. Eu caminho sobre o firmamento de Nu. Eu ergo uma flama faiscante com os relâmpagos do meu olho: sempre me arremessando no esplendor do diariamente Glorificado Ra, dando minha vida àqueles que pisam sobre a Terra!” Este pensamento dá a relação entre Deus e o Homem do ponto de vista Divino.

O Magista só é chamado de a si mesmo à conclusão da terceira parte; em que ocorre, quase como um acidente, a frase: “Portanto todas as coisas obedecem às minhas palavras.” No entanto, na quarta parte, ele principia: “Portanto vem tu a mim,” não é realmente o Magista que se dirige ao Deus; é o Deus que ouve as palavras, muito distantes, do Magista. Se esta invocação foi corretamente executada, as palavras da quarta parecerão distantes e estranhas. É surpreendente que um boneco (assim o Mago agora aparece a si mesmo) seja capaz de falar!

Os Deuses egípcios são tão completos em sua natureza, tão perfeitamente espirituais e, no entanto, tão perfeitamente materiais, que esta única invocação é o suficiente. O Deus pondera que o Espírito e mercúrio deveria agora aparecer ao Magista; e assim ocorre. Esta Fórmula egípcia é, portanto, preferível à Fórmula hierárquica dos hebreus, com suas tediosas preces, conjuração e maldições.

Será notado, entretanto, que nesta invocação de Thoth que mencionamos, está contida outra Fórmula, a fórmula recíproca que pode ser chamada de a Fórmula de Hórus e Harpócrates. O Magista dirige-se ao deus com uma projeção ativa de sua Vontade; e então se faz passivo enquanto o Deus se dirige ao Universo. Na quarta parte ele permanece silente, escutando a oração que ergue do Universo.

A Fórmula desta invocação de Thoth também pode ser classificada sob o Tetragrammaton. A primeira parte é Fogo: a ardente oração do Magista; a segunda é Água, em que o Magista escuta, ou vê, o reflexo do Deus. A terceira parte é Ar, o casamento de Fogo e Água; o Deus e o Homem se tornam um; enquanto a quarta parte corresponde à Terra, à condensação ou a materialização daqueles três princípios mais altos.

No que concerne às Fórmulas hebraicas, é duvidoso se a maior parte dos Magistas que as empregam compreende os princípios fundamentais do método de identidade. Nenhuma passagem de tais invocações que indique isto ocorre à memória; e os Rituais existentes não dão o menor sinal de tal concepção, ou de qualquer ponto de vista a não ser o mais pessoal e mais grosseiro quanto à natureza das coisas. Os hebreus parecem ter pensado que havia um Arcanjo chamado Ratziel exatamente no mesmo senso em que ouve um estadista chamado Richelieu; um ente individual vivendo em certo lugar. Ratziel possivelmente tinha certos poderes de um tipo mais ou menos metafísico – ele podia aparecer em dois lugares ao mesmo tempo, por exemplo, se bem que mesmo a possibilidade de um feito tão simples (para espíritos) parece ser negada por certas passagens de conjurações existentes, que dizem ao espírito que, se por um acaso ele estiver encadeado em algum ponto do Inferno, ou se algum outro Magista o está conjurando, de maneira que ele não pode vir, então que ele mande um espírito de natureza semelhante à sua, ou evada a dificuldade de outra forma qualquer. Mas é claro que uma concepção tão vulgar não ocorreria ao estudante da Cabala. Possivelmente os Magos que escreveram estas conjurações grosseiras tencionavam evitar que a mente do principiante se perturbasse por dúvidas e especulações metafísicas.

Aquele que se tornou Mestre Therion foi, em certa ocasião, confrontado precisamente por esta dificuldade. Estando resolvido em instruir a humanidade, Ele buscou uma maneira simples de expressar o seu propósito. Sua Vontade estava suficientemente infundida de bom senso para decidi-lo a ensinar aos homens O Próximo Passo, o que está imediatamente além dele. Ele poderia Ter chamado isso de “Deus”, ou “Eu Superior”, ou “Augoeides”, ou “Adi-Buda”, ou 61 outras coisas – mas ele descobrira que estas são todas uma só, no entanto, que cada uma representa uma teoria do Universo que ultimamente tem sido despedaçado pela crítica, – pois ele já havia passado pelo plano da razão, e sabia que toda afirmação contém uma obscuridade. Ele disse, portanto: “Eu chamarei esta Obra de A Consecução do Conhecimento e da Conversação do Sagrado Anjo Guardião”, porque a teoria implicada nestas palavras é tão absurda que somente pessoas muito ingênuas perderiam tempo analisando-a. A expressão seria aceita como uma convenção, e ninguém incorreria o sério perigo de fundar um sistema filosófico baseando-se nela.

Isto compreendido, podemos reabilitar o sistema hebraico de invocações: a mente é o grande inimigo; portanto, invocando entusiasticamente uma pessoa que nós sabemos que não existe, nós estamos refutando aquela mente. Porém não devemos deixar de filosofar de todo à Luz da Santa Cabala. Nós deveríamos aceitar a Hierarquia Mágica como uma classificação mais ou menos conveniente dos fatos do Universo tais como eles nos são conhecidos; e à medida que nosso conhecimento e compreensão destes fatos aumentam, deveríamos nos esforçar por ajustar nossas ideias daquilo que nós queremos dizer com qualquer símbolo.

Ao mesmo tempo, lembremo-nos de que existe uma definida concordância da correlação dos vários itens da hierarquia com os fatos observados da Magick, uma concordância que é demonstrada pela experimentação. No simples assunto de visões astrais, por exemplo, um caso significativo pode ser mencionado.

Sem lhe dizer o que era, o Mestre Therion em certa ocasião recitou, a guisa de invocação, a “Ode a Vênus”, diante de um Probacionista da A∴A∴ que ignorava a língua grega. Recitada a Ode, o discípulo saiu em uma viagem astral, e tudo o que ele viu, sem qualquer exceção, estava em harmonia com Vênus. Isto foi correto nos mínimos detalhes. Ele obteve até as quatro escalas de cor de Vênus com absoluta correção. Considerando que ele viu apaixonadamente cem símbolos ao todo, as probabilidades de coincidência são quase nulas. Tal experiência (e os arquivos da A∴A∴ contém dúzias de casos similares) proporciona prova, tão absoluta tanto quanto qualquer prova pode ser neste mundo de ilusão, de que as correspondências em Liber 777 representam fatos da natureza.

É possível que este sistema “direto” de Magick jamais tenha sido realmente empregado. Pode ser sugerido que as invocações que nos chegaram às mãos são apenas as ruínas dos Templos da Magick. Os exorcismos podem ter sido escritos para o propósito de serem memorizados, enquanto era proibido fazer qualquer registro das partes verdadeiramente importantes da cerimônia. Os detalhes de ritual que nós possuímos são escassos e pouco convincentes; se bem que muito sucesso tem sido conseguido de maneira esotérica convencional tanto por Frater Perdurabo quanto por muito de seus colegas. No entanto, cerimônias deste tipo têm permanecido sempre tediosas e difíceis. Parece que o sucesso é adquirido quase a despeito da cerimônia. Em qualquer caso, foram as partes mais misteriosas do Ritual que evocaram a força divina. Conjurações com a Goétia nos deixam indiferentes, se bem que, notavelmente na segunda conjuração, existe uma grosseira tentativa de usar aquela Fórmula de comemoração de que falamos no capítulo precedente.

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Magick – Liber ABA – Livro 4


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  • por John Bell