Capítulo VIII Do Equilíbrio; e do Método Geral e Particular de Preparar o Templo e os Instrumentos da Arte.

I

“Antes que houvesse equilíbrio, a face não contemplava a face.” Assim diz o mais santo dos livros da antiga Cabala. Uma das faces aqui mencionadas é o Microcosmo e a outra o Macrocosmo.

Como foi dito acima, o propósito de qualquer cerimônia mágica é unir o Macrocosmo e o Microcosmo.

É como uma ótica: os ângulos de incidência e reflexão são iguais. Você deve equilibrar exatamente seu Macrocosmo e Microcosmo, verticalmente e horizontalmente, ou as imagens não coincidirão.

Este equilíbrio é afirmado pelo Magista quando arranja o interior do Templo. Nada deve estar assimétrico. Se você tem qualquer coisa no Norte, você deve por algo igual e oposto no Sul. A importância disto é tão grande, e a verdade disto tão óbvia, que nenhuma pessoa com a mais medíocre capacidade para a Magick pode tolerar qualquer objeto fora de equilíbrio por um momento que seja. Seu instinto se revolta instantaneamente. Por esta razão as armas, Altar, Círculo e Magus são todos cuidadosamente proporcionados um ao outro. Não serve se temos uma Taça do tamanho de um dedal e uma Baqueta do tamanho de um poste.

Novamente, o arranjo das armas no Altar deve ser de maneira que elas pareçam equilibradas. Nem deve o Magista usar qualquer ornamento desequilibrado. Se ele empunha a Baqueta na mão direita, que ele tenha o Anel na esquerda, ou o Ankh, ou a Campainha, ou a Taça. E por motivos que ele se mova para direita, que ele faça este movimento por um motivo equivalente para a esquerda; ou se para frente, para trás; e que ele corrija cada ideia indicando a contradição contida nessa ideia. Se ele invoca Severidade, que ele declare que Severidade é o instrumento da Misericórdia; se Estabilidade, que ele mostre que a base daquela Estabilidade é uma mudança contínua, tal como a Estabilidade de uma molécula é assegurada pelo momento dos céleres átomos nela contida.

Desta maneira, que cada ideia forme uma espécie de triângulo baseado em dois opostos, sendo a própria ideia o ápice que transcende a contradição da base em uma harmonia mais alta.

Não é prudente utilizar qualquer pensamento em Magick, a não ser que o pensamento tenha sido previamente equilibrado e destruído.

Da mesma maneira com os instrumentos: a Baqueta deve estar pronta para se transformar em uma Serpente, e o Pantáculo na Suástica cíclica ou no Disco de Javé, como que para executar as funções da Espada. A Cruz é tanto a morte do “Salvador” quanto o símbolo fálico da Ressurreição. A Vontade deve estar pronta a culminar na entrega daquela Vontade; a flecha da aspiração que é desfechada contra o Sagrado Pombo deve se transmutar na Virgem Maravilhada que recebe em seu útero aquele mesmo Espírito de Deus.

Qualquer ideia que seja em si mesma positiva e negativa, ativa e passiva, macho e fêmea, estar apta a existir acima do Abismo, qualquer ideia que não esteja equilibrada desta maneira, está abaixo do Abismo, contém em si uma inegável dualidade ou falsidade, e nisto, é perigosa e Qliphótica. Mesmo uma ideia como “verdade” é perigosa a não ser que seja compreendido que toda Verdade é, em um sentido, falsidade. Pois toda Verdade é relativa; e se supormos absoluta, ela nos desencaminhará. O Livro das Mentiras, falsamente assim chamado (Liber 333) merece cuidadoso estudo quanto a isto. O leitor deveria também consultar a “Introdução” de Konx Om Pax, em “Thien Tao” no mesmo volume.

Tudo isso deve ser expresso nas palavras do próprio Ritual e simbolizado em cada ato executado.

II

É dito nos antigos livros de Magick que tudo o que o Magista usa deve ser “virgem”. Isto é: não deve nunca ter sido usado por qualquer outra pessoa ou para qualquer outro fim. Os Adeptos antigos davam a máxima importância a isto, o que tornava a tarefa do Magista bem difícil. Ele queria uma Baqueta, e a fim de cortá-la e apará-la ele necessitava de uma faca. Não era meramente suficiente comprar uma faca nova; ele achava que deveria fazer a faca. Para fazê-la, era requerido cem coisas mais, sendo que a requisição de cada uma poderia requerer mais cem; e assim por diante. Isto demonstra a impossibilidade de nos desvencilharmos do nosso meio ambiente. Mesmo em Magick não podemos avançar sem o auxílio de outros.

Havia, além disto, outro propósito nesta recomendação. Quanto mais trabalho e mais dificuldades a sua arma lhe custar, mais útil ela lhe será. “Se você quer que uma coisa saia bem feita, faça-a você mesmo.” Seria inútil levar este livro a uma loja de departamentos e solicitar aos funcionários que lhe forneçam um Templo de acordo com as especificações. Vale realmente a pena, ao Estudante que requer uma Espada, ir escavar minério de ferro, derretê-lo com carvão preparado por ele mesmo, forjar a arma com sua própria mão; e até dar-se o trabalho de sintetizar o Óleo de Vitríolo com o qual a lâmina será gravada. Ele terá aprendido várias coisas úteis na sua tentativa de fabricar uma Espada realmente virgem; ele compreenderá como uma coisa depende da outra; ele começará a apreciar o significado das palavras “a harmonia do Universo”, tão frequentemente usadas, estúpida e superficialmente pelo apologista ordinário da Natureza; e ele também perceberá a verdadeira operação da lei do Carma.

Outra notável injunção da antiga Magick era que o que quer que pertencesse à Obra deveria ser o único. A Baqueta deveria ser cortada com um único golpe de faca. Não deveria haver qualquer corte errado ou repetido, nenhum desajeitamento ou hesitação. Se você golpeia, golpeie com toda sua força! “O que quer que tua mão faça, faça com todo o seu poder!” Se você vai se dedicar a Magick, não faça compromissos. Você não pode fazer revoluções com água de rosas, ou praticar luta romana usando cartola. Depressa descobrirá que, ou perde a luta ou perde a cartola. A maior parte das pessoas fazem ambas as coisas. Eles tomam o caminho da Magick sem suficiente reflexão, sem aquela determinação diamantina que faz o autor deste livro exclamar, ao pronunciar seu primeiro juramento, “Perdurabo” – “Eu perdurarei até o fim!” Eles começam a grandes passos, e de repente descobrem que seus sapatos estão se sujando na lama. Ao invés de persistirem, eles correm de volta para o rebanho e a convenção. Essas pessoas têm apenas que culpar a si mesmas se os próprios moleques de rua zombam delas.

Outra recomendação era esta: Compra o que necessitas sem fazeres regateio!

Você não pode estabelecer uma proporção entre os valores de coisas incomensuráveis. O mais ínfimo dos Instrumentos Mágicos vale infinitamente mais que tudo o que você possui, ou melhor, que tudo o que você estupidamente pensa que possui. Quebre esta regra, e a Nêmese usual dos mornos lhe aguarda. Não só você adquire instrumentos de qualidade inferior, mas você perde de alguma outra forma aquilo que você julgou que era bastante ladino para conservar. Lembre-se de Ananias!

Por outro lado, se você compra sem regatear, perceberá que o vendedor juntou sua compra a bolsa de Fortunatus. Não importa em que emergência você pareça se encontrar, na última hora suas dificuldades serão solucionadas. Pois não existe poder do firmamento e do éter, sobre a terra e sob a terra, na terra seca e na água; do ar rodopiante e do fogo crepitante, e todo encanto e flagelo de Deus que não seja obediente à necessidade do Magista! Aquilo que ele tem, ele não tem; mas aquilo que ele é, ele é; e aquilo que ele vai ser, ele será. E nem Deus e nem o Homem, nem toda a malícia de Choronzon, pode impedi-lo ou fazer com que ele se desvie um momento de seu Curso. Este comando e esta promessa têm sido dados por todos os Magi sem exceção. E onde este comando foi obedecido, esta promessa infalivelmente foi cumprida.

III

Em todos os atos, as mesmas fórmulas se aplicam. Para invocarmos um Deus, isto é, para nos elevarmos ao plano de consciência representado por aquela divindade, o processo é triplo: Purificação, Consagração e Iniciação.

Portanto, toda arma mágica, e até o mobiliário do Templo, deve passar por este triplo regime. Os detalhes variam apenas em pontos sem importância. Por exemplo, para se preparar, o Magista purifica-se mantendo sua castidade e se abstendo de qualquer deturpação. Para preparar, digamos, a Taça, nós nos certificamos de que o metal nunca foi empregado para qualquer outro propósito – nós derretemos minério virgem e refinamos o metal com o máximo cuidado – ele deve ser quimicamente puro.

Para resumir isto tudo em uma frase: todo artigo empregado deve ser tratado como se fosse um candidato a iniciação; mas naquelas partes do ritual em que o candidato é vendado, nós embrulhamos a arma em um pano negro. O juramento que o candidato faz é substituído por uma injunção em termos semelhantes. Os detalhes do preparo de cada arma deveriam ser cuidadosamente planejados pelo Magista.

Além disto, a atitude do Magista para com suas armas deveria ser aquela do Deus para com o suplicante que O invoca. Deveria ser o amor do pai por seu filho, a ternura e o cuidado do noivo por sua noiva, e aquele sentimento peculiar que o criador de toda obra de arte experimenta por sua obra prima.

Onde isto tenha sido claramente compreendido, o Magista não experimentará dificuldade em observar o ritual apropriado; não só na atual consagração ritual de cada arma, mas na preparação da mesma, um processo que deveria iluminar esta cerimônia; por exemplo, o Magista cortará a Baqueta da árvore, tirará as folhas e brotos, removerá a casca. Ele aparará bem as pontas e aplainará os nós – isto é o banimento.

Ele então esfregará a Baqueta com Óleo consagrado até que ela se torne lisa, brilhante e dourada. Ele então a embrulhará em seda da cor apropriada: isto é consagração. Ele então a empunhará, e imaginará que ela é aquele tubo com que Prometeu trouxe fogo do céu, formulando para si mesmo a passagem da Santa Influência através dela. Desta e de outras formas ele executará a iniciação, isto é, ele repetirá o processo todo em uma cerimônia elaborada.

Para tomarmos um exemplo totalmente diverso, o do Círculo: o Magista sintetizará o vermelhão requerido de mercúrio e enxofre sublimados por ele mesmo. Este puro vermelhão, ele mesmo misturará com Óleo consagrado, e enquanto ele aplica esta tinta ele pensará intensamente e com devoção nos símbolos que ele está desenhando. Este Círculo pode, então, ser iniciado por uma deambulação, durante o qual o Magista invoca os nomes de Deus que ali estão pintados.

Qualquer pessoa sem suficiente capacidade para começar os métodos apropriados de preparação para os outros artigos, provavelmente nunca será um Magista; e nós apenas desperdiçaríamos nosso tempo se tratássemos em detalhe da preparação de cada instrumento.

Existe uma instrução definida em Liber A vel Armorum para o preparo da Lâmpada e das Quatro Armas Elementais.


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